segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Inverno

A melhor forma de tornar os sonhos em realidade é acordando. Paul Valéry

Fazem menos cinco graus logo abaixo da minha pele.
Meus ossos estão à sombra dos sonhos que tive
e que acabaram de ruir novamente.
Aqui é triste e frio, mas ainda é o presente.

Meu peito bate em animação suspensa,
é grave e lento seu bumbo agora
tem dor e tem medo, num contratempo,
tem chiado molhando o instante que chora.

O meu corpo que aprendi a vestir
pensa que talvez despindo-se de si
possa quem sabe, revelar enfim
a alma que soluça abrupta em mim.

O céu é branco daqui
como se o tempo o oferecesse
a quem inquieto e corajoso
queira escrever em seu seio o porvir.

É preciso sangue para atravessar estes tempos.
É preciso tê-lo e não negar-lhe o passeio.
Pois que ganhando as ruas arteriais do eu mesmo
me difunde no sonho que novamente vai se erguendo.

E segue brotando nos escombros do peito
regado pelas sódicas lágrimas que desceram
renascem raízes cravadas no aqui e agora:
é na urgência da vida que o sonho ascende dançando.

E ainda que seja sonho, germe do que ainda virá
não é contudo menos vivo e avassalador.
Que se lance virótico nas planícies humanas
e floreça concreto na rebenta aurora.

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